Viramundo com Gilberto Gil
01 Aug, 2013
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Por Fernanda Franco
Sou viramundo virado – Com esse refrão da música carro-chefe do documentário do diretor suíço Pierre-Yves Borgeaud, Gilberto Gil resume sua trajetória como embaixador político e cultural, fazendo uma reflexão sócio-filosófica e folclórica de sua própria origem, suas conquistas, sonhos e determinação em reafirmar a importância da preservação da identidade cultural de cada povo e suas tradições. No seu caso, particularmente, através da sua música. No filme, o cantor baiano busca suas origens musicais no Brasil, na África e na Austrália.
O documentário mostra também a música nas comunidades indígenas, que mantém uma luta constante de sobrevivência nos tempos modernos da nova era digital. Em suas visitas a comunidades pobres, Gilberto Gil discute junto a algumas personalidades locais a problemática da ‘racialização’ dos povos, fazendo uma referência sobre a ‘necessidade de se fugir de um certo discurso maniqueísta que caracterizou a luta do passado’. Em suas visitas, no Brasil, principalmente, ele aproveita e verifica a situação dos ‘pontos de cultura’, projeto que ele mesmo deu início durante o seu ministério, levando tecnologia e cultura a grupos isolados e marginalizados da sociedade.
O filme abre com a chegada do cantor em sua terra natal, Salvador, na Bahia, região que ele afirma ter conseguido amenizar o problema através de eventos paralelos e congruentes como o Carnaval, o Candomblé e a forte expressão musical do lugar.
Em sua visita a Sidney, no entanto, Gil bate um papo com o colega músico e também político Peter Garret (ex Midnight Oil) e falam da importância do papel do artista na relação político-cultural de cada povo e da música/arte como poder de transformar e profetizar as culturas através da liberdade de expressão. O cantor brasileiro aproveita para interpretar, juntamente com um jovem rapper aborígene, a música Beds are burning – canção política que virou hit, falando sobre o direito dos nativos Australianos Pintupi (uma das últimas tribos vindas do deserto) em terem suas terras de volta.
Esteticamente, o documentário mostra imagens realistas, com longos ‘takes’ de cenários da natureza enfocando os quatro elementos naturais (água, terra, fogo e o ar) que são representados pelos orixás, os deuses africanos, e seus arquétipos, que estão relacionados às manifestações dessas forças naturais. Neste cenário, Gil é simbolizado como Xangô, o deus do fogo, tanto por descendentes do Bantu, como por descendentes de aborígenes.
No filme, a Cristianização e Ocidentalização são temas debatidos junto ao aborígene australiano Patrick Dodson que enfatiza ‘nunca houve qualquer reconhecimento de nossa cultura única’. Gil reage: ‘No meu país, onde os negros foram trazidos como escravos, eles sofreram e foram humilhados e separados e todas as coisas ruins que você possa imaginar. O tempo passou e as coisas mudaram. Agora podemos ter um ministro negro.’
Mas um dos momentos mais emocionantes da obra é o encontro de Gil com o ativista sul-africano Vusi Mahlasela, no qual ambos executam um dueto de Tempo Rei e Vusi explica o conceito Zulu de ‘ubuntu’, como ‘uma pessoa é uma pessoa por causa de outras pessoas’ e encerra cantando Say Africa. De volta ao Brasil, a odisséia se encerra na cidade fortemente indígena de São Gabriel da Cachoeira, onde a nativa Sabrina Santos ressalta o orgulho em ser indígena e canta uma versão em dialeto Tucano de A Raça Humana.
Gilberto Gil faz essa trajetória pelo Sul do Continente em busca de suas origens musicais. A música no filme funciona como um personagem que interconecta todos os povos de todos os lugares visitados, onde, independente de sua cor de pele ou costumes diferentes, possuem uma única linguagem em comum, a música. Gilberto transpassa barreiras culturais, políticas, sociais e religiosas, experimentando um pouco de cada povo por todos os lugares que passa.
Artista respeitado e admirado, Gilberto Gil foi ativista político em sua adolescência, lutando contra a ditadura, tendo sido condenado pela sua música, preso e exilado, mas, nunca desistiu. Sua luta incansável o levou a exercer o cargo de Ministro da Cultura no Brasil, resultado, que ele confessa, de mudanças.
O documentário Viramundo é uma experiência cultural e antropológica. Com uma fotografia estilo cinema verite, câmeras em movimento, informalidade, situações casuais e realistas, ritmo lento e diálogos improvisados, o resultado é simples, um porta-retrato de um músico que ama seu povo, e cujo coração bate pelos oprimidos.
O filme foi lançado em Londres no próximo dia 26/07, no Barbican. O DVD estará nas lojas a partir do dia 05/08.















































