Celso Prudente, organizador e curador da Mostra Internacional do Cinema Negro

26 Nov, 2013

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Entrevista

De 25 a 30 de novembro, acontece, na cidade de São Paulo, a 10ª Mostra Internacional do Cinema Negro. O evento, organizado pelo antropólogo Celso Luiz Prudente, foi aberto no Memorial da América Latina, em sessão especial para convidados. Amanhã, a mostra fecha na Biblioteca Alceu Amoroso Lima e na Casa Pau Brasil, com exibição gratuita de filmes de diferentes países.

O Culturart conversou com o organizador da mostra, que explicou a importância de haver, no Brasil, um evento de cinema que trate especificamente da imagem do negro: “O cinema negro, traduzindo-se como  força de resgate da imagem de afirmação positiva da africanidade, em meio a uma dominação hegemônica da imagem ocidental, colocou-se na ordem do dia como um testemunho humanista em favor da contemporaneidade (…). A “Mostra Internacional do Cinema Negro” é um possível fórum de discussão em favor da construção da imagem de afirmação dessa africanidade”, afirmou Celso Prudente.

 Confira a programação completa aqui e, a seguir, leia a entrevista na íntegra:

 Por que o sr. criou a Mostra Internacional do Cinema Negro?

Celso Prudente – A “Mostra Internacional do Cinema Negro” surgiu da necessidade de existir uma organização, em diferentes setores da sociedade brasileira, para se afirmar uma democracia cultural de natureza substantiva. Esse fenômeno é perceptível  sobretudo nas minorias e, no caso específico do afrodescendente, que é minoria étnico-racial, dado a sua fragilidade histórica, que o coloca desarticulado da relação de poder. Tendo em vista a revolução tecnológica que coloca a informação como centro da forma de existência, tal como  foi a máquina em relação a revolução industrial, a imagem se tornou elemento fundamental, enquanto configuração substancial da informação. O que vale dizer que um indivíduo ou grupo que tem sua imagem aviltada ou marginalizada sofre verdadeira anulação socio-cultural. Portanto, o cinema negro, traduzindo-se como  força de resgate da imagem de afirmação positiva da africanidade, em meio a dominação hegemônica da imagem ocidental, colocou-se na ordem do dia como um testemunho humanista em favor da contemporaneidade. Este quadro se mostrou em uma condição internacional que revela a desarticulção das imagens dos segmentos minoritários e especialmente o negro, que vive o trauma do impacto da violenta diáspora, que ainda influencia pontos vitais das relações sócio-culturais no mundo, situação que determinou o surgimento da “Mostra Internacional do Cinema Negro” como um possível fórum de discussão em favor da construção da imagem de afirmação da africanidade. Essa situação confere ao cinema negro e à mostra internacional essa tendência cinematográfica, que sugere dimensão pedagógica, como uma reposta à exigência de contemporaneidade.

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Além da exibição dos filmes, o que mais está previsto na programação da Mostra?

Celso Prudente – Como educador da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), na região amazônica, maior polo de biodiversidade do mundo, com interlocução com São Paulo, maior polo cosmopolita na América do Sul, acredito que, em 2013, a “Mostra Internacional de Cinema Negro” prega o amor como forma de respeito à diversidade e o respeito à biodiversidade, como resposta a crise planetária fatal que vivemos na atualidade. Nesta edição comemoramos os 50 anos do famoso discurso “EU TENHO UM SONHO” de Martin Luther King e os 100 anos do poeta Vinícius de Moraes. Com efeito, o grande homenageado desta edição é o esteta Haroldo Costa, que foi o primeiro ator negro a protagonizar uma peça no prestigiado Teatro Municipal do Rio de Janeiro: “Orfeu da Conceição”, peça teatral de Vinícius de Moraes. Haroldo Costa, quando estudante secundarista no Rio de Janeiro, também foi líder estudantil, mostrando-se um idealista em que o seu sentimento é semelhante ao sentido da luta pelos direitos civis do negro norte-americano. Soma-se a isto que este é o primeiro filme com música de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, com a consagrada música, “Eu Não Existo sem Você”, que teve atuação de Elizeth Cardoso, saudosa cantora negra conhecida como “A Divina”, o violão do genial João Gilberto e também o piano de Tom Jobim. Foi trilha sonora do filme “Pista de Grama”, em 1958, sendo realizado/dirigido por Haroldo Costa. Portanto, é profundamente justo e oportuno que a mostra que resgata os 50 anos do histórico discurso “EU TENHO UM SONHO” de Luther King e os 100 anos do poeta Vinícius de Moraes homenageie o grande vulto da cultura brasileira, marcada pela africanidade, que é Haroldo Costa. Vale dizer que a proposta da “10ª Mostra Internacional do Cinema Negro” é resgatar valores fundamentais em favor de uma humanidade como elemento estruturante da contemporaneidade.

Como o sr. tem visto o negro no momento atual? O sr. acha que a situação do negro na sociedade mudou no século XXI?

Celso Prudente –  Sem dúvida, a História tem sido mais rápida que a idéia, de tal sorte que as contradições produzem princípios para o desenvolvimento. O novo conceito de comunidade internacional tem despertado as populações do mundo para o esforço de construção de relações mais equitativas, pelo menos, é o que se nota com as políticas públicas traduzidas por meio das cotas que buscam garantir reparação e ação afirmativa em favor das forças minoritárias que, por razões historicamente determinadas, ainda vivem relações de fragilidade. Desta maneira, a luta para superar o nefasto impacto da violenta diáspora africana tem sido cada vez mais evidente entre as forças que reclamam por uma vida em favor do respeito à diversidade, buscando contribuir para a superação da crise de fatalidade planetária que vive a Terra, promovendo, assim, esforços também em prol do respeito a biodiversidade. Parece-me que esse quadro indica não somente para uma melhora da condição do negro, mas de aperfeiçoamento das relações humanas que estabelecem um nível melhor de vida para a espécie humana e o seu tempo que implica em profundo respeito ambiental. Fenômeno, que, “ao meu quase cego ver”, indica para um aperfeiçoamento de relações de existência, que sugere um tempo de mais compreensão, traduzido em transigência, permitindo às vidas e às vivências um tempo em que o cenário de construção da paz qualifica os atores, dando-lhes, só assim, o status de contemporaneidade. De modo que o sentimento de contemporaneidade indicou os esforços em favor do surgimento da “Mostra Internacional do Cinema Negro”. A contemporaneidade é o elemento vital do sentido desde evento enquanto que razão humana, logo este ato se estabelece como uma resistência ontológica da africanidade em favor de um devir de profunda austeridade, do amor ao o outro e, sobretudo do seu meio.

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