O Museu da Língua Portuguesa
01 Nov, 2013
Leia em Português abaixo | Read in English here
Por Celeste Gattai ( Language Republic)
Eu passei muitos anos da minha vida de adulta estudando e trabalhando em diversos lugares do centro de São Paulo. O centro é o tipo de lugar que as pessoas geralmente ou amam, ou odeiam. É uma região que pode muitas vezes ser intimidante para turistas e é
bastante comum encontrarmos dicas nos guias de turismo sobre como evitar assaltos por lá. É possível observar nas ruas do centro todos os problemas comumente associados ao desenvolvimento urbano mau administrado e descontrolado: trânsito caótico,
criminalidade, habitações sem regulamentação, moradores de rua, etc.
Há muitos anos uma sucessão de diferentes governos municipais tem tentado enfrentar estes problemas de frente e regenerar o centro da cidade. Por exemplo, desde 2005 São Paulo sedia a Virada Cultural: uma maratona cultural de 24 horas na qual uma variedade
de concertos, peças e exposições são apresentadas, entre outros lugares, em alguns dos locais mais simbólicos do centro como por exemplo o Vale do Anhangabau e a Praça da República, o que, sem dúvida, tem ajudado a mudar a impressão das pessoas em relação
a esta região. Mais recentemente, houve um esforço enorme para a erradicação do consumo e tráfico de drogas na região conhecida como cracolândia, localizada nos arredores da Estação da Luz.
Apesar de seus muitos problemas e contradições, o centro de São Paulo é repleto de história e possui muitas preciosidades arquitetônicas que fazem parte da nossa herança cultural e que valem a pena ser visitadas. Um exemplo é exatamente a área que acabei de mencionar acima: o Jardim da Luz e suas vizinhas a praça e a estação Júlio Prestes. Esta última abriga agora uma da mais belas salas de concerto do país, a Sala São Paulo. Bem perto, nós também temos a elegante Pinacoteca do Estado, um dos mais
importantes museus de arte do Brasil, e mais relevante ao nosso artigo, o Museu da Língua Portuguesa. Único, o museu foi inaugurado em 2006 e faz parte da velha Estação da Luz que foi extensivamente restaurada e renovada para acomodá-lo.
Diferentemente de outros artefatos de museu, a língua de um povo é considerada parte do chamado patrimônio imaterial, isto é “ algo considerado como parte do patrimônio que não é um objeto físico ou lugar, como por exemplo uma memória, uma tradição ou uma
prática cultural, em oposição a patrimônio tangível” (www.open.edu). Em agosto de 2000 um decreto governamental “instituiu o registro de bens culturais de natureza imaterial que constituem patrimônio cultural brasileiro, criando o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, viabilizando a efetiva proteção administrativa dos bens culturais intangíveis que se relacionam à identidade e a ação de grupos sociais” (www.ipac.ba.gov.br). Portanto, a contribuição do Museu da Língua Portuguesa para o desenvolvimento de maneiras inovadoras e específicas para a documentação, exposição e manutenção de um dos nossos patrimônios imateriais nacionais não poderia ter sido mais oportuna.
Os principais objetivos do museu são:
– mostrar a língua como elemento fundamental e fundador da nossa cultura;
– celebrar e valorizar a Língua Portuguesa, apresentada suas origens, história e influências sofridas;
– aproximar o cidadão usuário de seu idioma, mostrando que ele é o verdadeiro “proprietário” e agente modificador da Língua Portuguesa;
– valorizar a diversidade da Cultura Brasileira;
– favorecer o intercâmbio entre os diversos países de Língua Portuguesa;
– promover cursos, palestras e seminários sobre a Língua Portuguesa e temas pertinentes;
– realizar exposições temporárias sobre temas relacionadas à Língua Portuguesa e suas diversas áreas de influência.
As exposições estão espalhadas por três andares. O primeiro andar é dedicado a exposições temporárias e projetos educacionais. Exposições passadas focaram no trabalho e nas vidas de autores como Machado de Assis, Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Cora Coralina e Rubem Braga, entre outros. Este ano o museu está celebrando a vida do cantor e compositor Cazuza que morreu em 1990 aos 32 anos. As letras de suas músicas refletem uma visão crítica do Brasil e da sociedade brasileira que continua a ser relevante. O interessante é que pela primeira vez o museu está exibindo uma obra que não está diretamente ligada à literatura.
No segundo andar encontramos 6 espaços temáticos onde os visitantes podem explorar a história da língua portuguesa através de uma série de mostruários multi-sensoriais e atividades práticas. O uso da tecnologia e de abordagens multi-sensorias é realmente
uma característica proeminente do museu. Até mesmo nos elevadores podemos ouvir sons e ver imagens relativas à língua portuguesa! Finalmente, no tercerio andar pode-se assistir a um filme curto sobre as origens do português falado no Brasil, e visitar a Praça da Língua que mostra uma antologia da literatura produzida em português. Por sorte, uma série de exposições itinerantes possibilita que pessoas que moram em outras cidades brasileiras possam também curtir o trabalho maravilhoso produzido pelo museu em São Paulo.
Com tantas coisas interessantes para ver e fazer, esperamos que vocês possam visitar o centro da cidade e o Museu da Língua Portuguesa durante a sua próxima visita a São Paulo!
Referências:
“What is heritage?”
Decreto número 3.551(August 2000) IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
Conceitos Gerais: Patrimônio Imaterial
Watts J. (2013) “Cracolândia: the crack capital of Brazil where addicts are forced to seek help”

























































