Ana Maria Cockerill: Conexões entre a Prática Artística e a Clínica
30 Oct, 2013
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Por: Manoela dos Anjos Afonso
Série “Circulando Vozes”
Artista e Arte-psicoterapeuta, Ana Maria Cockerill chegou em Londres no final dos anos 1980. Hoje ela faz parte do grupo de artistas-membros da Espacio Gallery, onde, além de expor seus próprios trabalhos, também organiza exposições coletivas e realiza projetos de curadoria. Contrasts, que aconteceu de 17 a 22 de Outubro de 2013, foi a mais recente exposição que ela organizou, reunindo um grupo de 20 artistas com trabalhos desenvolvidos em diversos meios como pintura, gravura, escultura, fotografia, vídeo e instalação.
Ana Cockerill vivenciou muitas experiências que hoje se refletem nas suas escolhas profissionais, tanto como artista, como no exercício da clínica. Nascida em Minas Gerais, porém tendo crescido em Salvador, foi na capital baiana que ela desenvolveu o seu interesse pelas Artes.
Desde muito cedo, Ana teve o desejo de viver somente para a produção artística, mas por esta ser uma atividade um tanto incerta economicamente, acabou buscando caminhos que pudessem lhe dar alguma estabilidade sem ter que se afastar do universo das Artes. Além disso, ela foi a única entre 14 irmãos que escolheu viver de arte, os demais estavam escolhendo outros cursos como medicina e direito. Isso lhe causou certa hesitação e preocupação em relação a seu futuro. Mas Ana foi em frente. Antes mesmo de completar 18 anos, ela ingressou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Mais tarde, começou a trabalhar com restauração, pois era fascinada pelo artista Michelangelo e tinha um olhar romântico a respeito deste trabalho junto aos prédios históricos, dependurada em andaimes. Seguindo esta trilha, Ana tornou-se funcionária do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC, onde trabalhou em projetos de restauro no Centro Histórico de Salvador, em Igrejas do Pelourinho, na Catedral e também no prédio da Escola de Medicina.
Mais tarde, ainda no IPAC, Ana foi responsável por um trabalho de restauração de um forro importante do Solar Ferrão, composto por “pinturas profanas do sec XVII que estavam encobertas por quatro camadas de repintura”, segundo a artista. Neste trabalho, Ana liderou e treinou cerca de 25 pessoas, muitas das quais pertenciam à comunidade local. Para ela, este pode ter sido um dos períodos mais frutíferos para a restauração no Centro Histórico de Salvador, uma vez que havia um governo mais progressista, Benito Sarno assumiu a diretoria do IPAC e foram criados grupos de trabalho preocupados não só em recuperar a fachada dos edifícios históricos, mas também em incluir e conscientizar os moradores daqueles locais, inclusive prostitutas e dependentes químicos.
Em continuidade à sua formação, Ana Cockerill cursou o Mestrado em Restauração e Conservação ofertado pela Universidade Federal da Bahia, curso realizado em parceria com a UNESCO, e em seguida cursou o Mestrado em Conservação de Têxteis, em Portugal. De volta ao Brasil, ela apresentou os resultados de sua pesquisa mas, após 6 meses, pediu demissão para viver a sua história de amor, uma vez que o seu companheiro (que é britânico), havia lhe pedido em casamento. Ela aceitou e então mudou-se para Londres. Apesar de ter que deixar o trabalho, a família e a cidade de Salvador, Ana afirma que o sentimento de aventura contou a favor ao tomar esta decisão. “Eu era louca por Londres! Então, é claro que eu adorei a ideia, apesar de todo o sofrimento em ter que me separar de minha família e tanta coisa especial na minha vida”.
Logo que chegou em Londres, Ana trabalhou, dentre outras coisas, num pequeno estúdio de restauração de antiguidades, em Ealing Broadway. Após aproximadamente um ano vivendo aqui, conseguiu um trabalho de três anos em Hampton Court Palace. Devido à sua formação em artes e experiência com restauração, foi contratada pela Royal Collection para fazer parte do time de conservação e restauro de uma série de famosas tapeçarias pertencentes à Rainha, danificadas em um incêndio há alguns anos. “… esta série se chama ‘Atos dos Apóstolos’ e foi criada através dos cartões de Rafael que estão expostos no V&A Museum. A minha tapeçaria era O Milagre dos Peixes… enorme! Trabalhava direto preenchendo as lacunas da da tapecaria , e algumas vezes fazendo exames no laboratorio, e cheguei também a treinar estudantes de restauro que vinham fazer estágio e ajudar… Me lembro que uma vez entrei debaixo do stand e fiquei escondida atrás da tapeçaria chorando… não era isso o que eu queria fazer, eu queria criar arte…”.
Apesar de ter sido um trabalho importante em sua carreira, Ana afirma que não tem saudades deste período: “Hampton Court foi o Palácio mais especial de Henrique VIII, cheio de história e beleza, um visual de cartão postal à beira do Thames, cisnes, baile à fantasia, piqueniques no parque dentro de toda uma atmosfera bucólica, a visita da Rainha… Eu conheci a Rainha porque quando teve a inauguração eu fui uma das restauradoras… mas eu me sentia cansada e entediada, não era aquilo o que eu queria fazer… voltava para casa, era igual a uma maquininha… era pior que o IPAC mil vezes… lá a gente cantava trabalhando – brasileiro é outra história: a gente cantava, contava piada, no almoço ou quando terminava o dia, tomava uma cervejinha ali pelos botecos do Pelourinho. E em Hampton Court era assim, tinha a parada ‘silenciosa’ para o chá das quatro todo dia, parecia um déjà vu eterno e eu falava ‘meu Deus!’, ia pro trabalho voltava no outro dia, a mesma coisa, cansativo. Naquela época eu decidi começar a iniciar os meus colegas do departamento de conservação na música brasileira e inseri à rotina do trabalho muitas fitas de Bossa Nova e Tropicalismo que havia trazido na minha bagagem. Mas apesar da fossa e da saudade nas comparações, observei uma coisa que me deixou mais otimista: eu trabalhava pro Governo Britânico mas não havia tanta hierarquia como se via no Brasil da época, aqui todos participavam da rota de fazer o chá, inclusive o chefe do departamento… o diretor do Palácio ia trabalhar de bicicleta…”.
Quando o contrato em Hampton Court Palace terminou, Ana tentou uma vaga para trabalhar com restauração de pedras no British Museum: “Infelizmente não consegui o trabalho. Eu fui entrevistada, com o inglês péssimo, com gente de um métier super quente e eu com aquele inglês capenga… só lembro que perguntaram dos problemas maiores que eu tinha em Salvador em conservação e restauração. Eu respondi: termitas, que é o cupim, e grana, porque o nosso material tinha que ser todo importado, inclusive os aparelhos de laboratório, que eram caríssimos, e por mais que se conseguisse, tinha-se muitas vezes que treinar pessoal na Europa”.
Perto de completar 40 anos, Ana Cockerill deu uma guinada em sua vida: teve uma filha chamada Joana, começou a se afastar da restauração e a se envolver com outros tipos de trabalho. “Aqui enlouqueci quando vi a possibilidade de conhecer gente diferente, de trabalhar com pessoas diferentes, aí comecei a fazer arte comunitária com refugiados, e resolvi fazer um curso de Arte Terapia num foundation por quase 2 anos para me preparar para a universidade…”.
No final dos anos 1990, Ana já trabalhava em projetos como o NAZ Brasil, Arts For Freedom (um projeto independente, criado para dar apoio a crianças refugiadas vivendo em Hostels de Londres), além de iniciar um departamento de artes numa das primeiras escolas brasileiras, em Baker Street.
Após cerca de 5 anos trabalhando nestas comunidades, e com sua filha na época com 7 anos de idade, a artista buscou uma formação em Arte Terapia, já que este era um desejo antigo: “a Arte Terapia veio porque eu, há muitos anos, desde o Brasil, nos anos 80, fazia análise e sempre achei fascinante o poder da arte como comunicação e linguagem simbólica, e sempre pensei em fazer um curso combinando arte e psicanálise”.
Ela ingressou, então, no mestrado em Art Psychotherapy na Goldsmiths e trabalhou como Arte Psicoterapeuta no setor de Psiquiatria Aguda do Ealing Hospital e também numa escola em Mitcham. “Na época era super puxado: o curso, escrever, sessoes de supervisão, terapia, auto-análise constante… ser mãe e conciliar todo o ‘timetable’. Foram 3 anos difíceis, mas finalmente concluí e fui registrada no HPC-UK. Mas depois veio a recessão, e você tem que fazer concessões e pegar trabalhos que não gosta. A Arte Terapia é super respeitada, tanto aqui quanto em outros países onde a profissão é registrada. Mas infelizmente muitos arte-terapeutas abandonam a arte. Eu me apresento como artista e arte-psicoterapeuta. Esta é a briga que eu tenho o tempo inteiro: eu fico dura, mas não paro de fazer arte. Na essência, ser arte-terapeuta e ser artista são atividades que se interrelacionam”.

Ana Cockerill junto a seu trabalho intitulado “The Ideal (red) Chair”, na exposição Contrasts, Espacio Gallery, London, 2013.
Ana Cockerill vem traçando um percurso associado à prática artística, porém construído a partir de experiências com restauração de patrimônio histórico e de obras de arte, com o trabalho comunitário por meio da arte, e da clínica em Art Psychotherapy. Atualmente, além de produzir instalações, objetos e esculturas, Ana também atende pacientes, tanto em seu espaço particular, quanto trabalhando no sistema privado e público de saúde, incluindo o NHS.
Como artista e arte-psicoterapeuta, Ana Cockerill destaca: “Todo o meu trabalho em arte contém elementos simbólicos e metafóricos, que expressam uma influência dos meus estudos e prática em Art Psychotherapy. É fundamental para minha prática profissional como arte-psicoterapeuta que eu continue praticando como artista, principalmente porque arte é o principal elemento e veículo de comunicação e reflexão em Art Psychotherapy. Meu trabalho de arte, para mim, é muito significativo e subjetivo, e não deixa de ter a influência do que eu estudei em Art Psychotherapy, tem toda uma coisa ligada a conceitos psicanalíticos e à minha experiência clínica”.













































