Escrita e processo criativo com Maria Antônia
05 Jun, 2011
Por Shirley Nunes
No mês de maio de 2011, estive no Sesc na cidade de São José do Rio Preto/ SP, participei de um mini-curso chamado Escrita Criativa.
Há muito tempo trabalho com as palavras e nos últimos anos tento dedicar mais tempo a elas.
Quem ministrou o curso foi Maria Antonia de Oliveira. O minicurso seria 3 dias, uma vez por semana, mas infelizmente eu já tinha viagem marcada para Londres. Então fui participar do primeiro dia, sabendo que não iria até ao fim. E fiz bem porque aprendi certas coisas e confirmei outras.
O trabalho envolvia a arte, a psicologia e a educação, áreas que gosto muito. Assim sendo, vou dividir com vocês o que foi aproveitado naquela aulas de 2 horas.
Primeiramente, foram feitos comentários de cada um ali presente sobre o interesse pelo mini-curso e qual ligação com as palavras que cada um tinha. Enquanto os primeiros falavam, eu pensava “ Meu Deus!Como definir a minha ligação com as palavras numa pequena apresentação? Eu já sei que sou complexa por demais para conseguir me explicar em poucos segundos, imagine falar de algo que eu gosto tanto.” Exatamente por saber que falo muito, que me fez pensar como poderia ser suscinta e objetiva. Estou pegando a prática, afinal meus textos tendem a ser grandes e detalhistas, então, era mais um exercício comigo mesmo.
Então consegui resumir, sem planejar muito: “É difícil dizer em poucas palavras o motivo do meu interesse, mas resumindo, eu tenho uma relação feliz com elas, e desde 2008 tenho prestado mais atenção como escrevo. Eu cursei Letras, eu componho músicas e escrevo textos há muito tempo, então percebi que devo trabalhar esse lado escritora. Há alguns meses fiz um blog porque comecei a escrever para um jornal e espero um dia, quando eu me sentir sábia, escrever um livro.” Ae alguém disse: qual é o nome do seu blog? Eu falei e já acrescentei: “escrevo sobre ensino da Língua inglesa, meio avesso a gramática, ora tem gramática. Também escrevo sobre música e outras experiências, porque é muito difícil falar de uma coisa só.” Na música, vejo assim também, como cantar apenas soul, se tem tanta coisa linda. Como cantar só mpb se tem tanta música boa, swingada? Que coisa difícil, querer ser um só. Isso não faz parte de mim.”
Para mim é muito difícil ser breve, quem convive comigo já sabe o quanto sou intensa com a vida. Às vezes fico me justificando por ser assim, mas fiquei muito aliviada quando a professora Maria Antonia, também escritora, me disse: “ninguém consegue ter uma cara só. Adélia Prado diz que ela mal define sua própria letra, que cada vez que escreve, escreve com letra diferente, imagine a sua forma de pensar ou de ser.” Poxa, ai me realizei, pensei: ah que bom, me sinto mais normal, afinal minha letra varia muito também, escrevo corrido, ora letras de forma, ora…também não importa.
O mais interessante é que cada um sente que tem uma relação com as palavras, e cada uma delas pensa diferente de mim. Por isso adoro fazer cursos, oficinas, palestras etc. Tem sempre algo novo, algo que você nunca ouviu ou pensou. Algo que não sabia.
O mini-curso
Maria Antônia começou a falar sobre o mini-curso, falando de três perguntas interessantes para quem gosta de escrever. É bom refletir sobre, para saber onde quer chegar.
1- Porque quero escrever? a) compreender melhor a vida e a mim mesmo; b) necessidade de afeto, de expressar e comunicar (acho que foi esse motivo que me fez iniciar com diário aos 13 anos); c) queremos auxiliar o outro, informar.
2- Qual minha motivação para isto? Pode ser várias razões.
3- Qual o sentido desse querer?
Assim a professora, vai citando escritores para falar porque escrevemos. Ela cita “nossa memória é frágil (…)” de Isabel Allende no livro A casa dos Espíritos. Cita o psicólogo Ruy Fernando Barboza “ao escrever sobre os sentimentos, ficamos mais em contato com eles. Podemos aceitá-los. Percebê-los melhor e eventualmente associá-los a suas causas.” Eduardo Galeano deu entrevista a tv cultura nesse mesmo mês, em 2011, e ele disse: Eu achei uma boa definição das minhas intenções, do que eu gostaria de fazer escrevendo; ser capaz de olhar o que não se olha, mas que merece ser olhado; as pequenas, as minúsculas coisas da gente anônima, da gente que os intelectuais costumam desprezar; esse micromundo onde eu acredito que se alimenta de verdade a grandeza do universo. E ao mesmo tempo ser capaz de comtemplar o universo através do buraco da fechadura, ou seja, a partir da pequenas coisas; ser capaz de olhar os grandes mistérios da vida, o mistério da dor humana, mas também o mistério da persistência humana nesta maniam às vezes inexplicável, de lutar por um mundo que seja a casa de todos e não a casa de poucos e o inferno da marioria.”. Veja bem, ele é escritor, a resposta foi nada resumida. De fato, devo ter a alma de escritora.
Ela cita até o francês Foucault, da área da análise do discurso “escrevemos para ser amados”. Aqui gerou discussões diversas. E depois, ouvi uma frase interessante, a qual não lembro se é de alguém ou se é da professora: “o que mais precisamos é alguém que nos leve a realizar aquilo que somos capazes.”
E diz que escrever é como fazer um bolo, para depois ser compartilhado. José Pacheco, grande educador, fala de partilhar, afinal “somos o que repetidamente fazemos” Carlos Hilsdort.
A professora cita David Lynch para dizer que “idéias são como peixes. Se você quiser pegar um peixe pequeno, pode ficar em águas rasas. Por outro lado, se quiser pegar um peixe grande, você tem que ir fundo.”. Pois bem, escrever não é apenas inspiração, acredito que foi o maestro Antonio Carlos Jobim que disse que 2% é inspiração e 98% transpiração.
É claro que, muitas vezes, nos vem um insight e logo precisamos escrever para não esquecer, mas dessas vezes, muitas precisam ser relidas, refeitas e acrescentar coisas e tirar outras. Isso é um trabalho árduo e que exige dedicação.
Você pode pensar qual é o melhor horário para você se inspirar. Por exemplo, eu sinto mais energia após às 6 da tarde para produzir qualquer coisa, texto, música, organizar algo etc.
A professora diz quais momentos prpopícios para criação: à noite, logo de manhã, quando viaja ou depois de meditar. Álias a meditação exige que você não pense em nada, que tenha a mente vazia, para você criar espaço para coisas novas que surgem sem saber de onde. Ainda não tenho essa prática tão presente na minha vida, mas acredito que ajuda a viver melhor.
Após a sua criação, é importante deixar descansar, para depois de alguns dias, talvez um dia depois, você possa reler e passar a limpo para ficar mais claro e mais fácil de ser entendido. Isso eu aprendi logo que iniciei o artigo no jornal. E digo mais, essa dica é importante para alguém que esteja aprendendo algo novo. Por ex., quem está aprendendo música, ou estudando para vestibular, para algum teste, ou para quem está aprendendo uma língua nova. O cérebro de fato, precisa de tempo para assimilar.
O processo criativo
Maria Antônia fala sobre uma equipe com 4 pessoas importantes para criarmos. Imagine um círculo. Divida-o em quatro pedaços. Agora em cada pedacinho você vai posicionar essas quatro pessoas.
1- o artista- ele reflete e transforma informações em novas idéias.
2- o explorador- ele sempre está antenado, e coleta informações.
3- O guerreiro- ele age, põe as idéias em prática.
4- O juiz – ele avalia, e decide o destino das idéias, para concluir.
Agora pense você sozinho, qual dessas pessoas você tem bem desenvolvido dentro de você. E o que estiver trabalhando pouco, exija mais dele.
O que mais gostei nas suas explicações, foi a sua linha, a sua postura em relação a vida. Ela fala de algo que eu busco, a individuação, ao contrário de individualização. É buscar a essência de si mesmo, é valorizar o que você tem de bom, eliminando o ego e seus impulsos. Assim ela cita Jung, discípulo de Freud, que hoje é uma referência na Psicologia.
Ele faz uma comparação muito feliz e simples: imagine você dentro de uma carruagem que segue um caminho, de repente ela passa num buraco, e você se sacode. Imaginou? Pois é a carruagem é o que te motiva a fazer algo, e o buraco é quando você percebe que não está no caminho certo. É hora de parar, descer da carruagem e olhar onde está o buraco. Seria o “insight”, uma dica, um safanão para te alertar de algo não está certo. Aí é hora de mudar, de optar por outra direção.
“Floreça onde estiver plantado.” Davi Carter












































