Notícia: Por um parto respeitoso: a mudança de paradigma na forma de se nascer no Brasil
Por Sabrina Stanford Thompson
Dia 19 de outubro, um grupo de ativistas, grávidas, mães, enfermeiras obstetras, pediatras, médicos obstetras, doulas, parteiras e simpatizantes do movimento de humanização do parto natural no Brasil fizeram uma grande manifestacão na Avenida Paulista em São Paulo. Para entender um pouco as reinvindicações dessas pessoas e necessário recorrer a algumas informações.
Segundo a UNICEF, atualmente o Brasil é campeão mundial de cesarianas, com taxas superiores a 52,3% na rede pública e inacreditáveis 82% na rede privada, em alguns estados como o Rio de Janeiro, por exemplo, essa taxa sobe para 93%. Isso faz com que o assunto do nascimento no Brasil se converta em um alarmante assunto de saúde pública.
Os motivos alegados são vários, mas como resultado desse processo, vemos que a mulher como figura primordial e consciente de sua funcão, vai gradativamente perdendo espaço para o ambiente técnico hospitalar e para a figura do médico. Nesse sentido, o parto deixa de ser um evento fisiologico normal, inscrito na saúde e sexualidade feminina e passa a ser instrumentalizado pela medicina. Aqui estamos falando não mais de um corpo ativo, sensual e alerta para as transformações características desse evento, mas de um corpo submetido a todo um sistema hospitalar que não tem no empoderamento feminino do parto uma de suas maiores preocupações.
Como muitos sabem, desde as primeiras contrações, passando pelo trabalho de parto ativo, até o nascimento do bebê, pode-se levar muito tempo. Algumas vezes um dia inteiro, ou mesmo dias. Trata-se de uma especie de rito passagem no qual uma mulher se prepara para o recebimento desse bebê. Uma série de hormônios são liberados com essa finalidade e a preparacão da mãe inicia-se naturalmente dessa forma. Exista quem diga que a ocitocina, mais conhecida como o hormônio do amor, nunca mais se repete com a mesma intensidade como na ocasiao do parto. Por outro lado, uma cirurgia cesariana leva de 15 a 30 minutos para ser feita.
Normalmente, do ponto de vista de alguns medicos, o procedimento da cesariana e mais rapido, “fácil” e lucrativo. Isso faz com que a situacão do parto no Brasil tenha se transformado em uma indústria técnica de “se fazer nascer”. Muitas mulheres que optam passar pela experiência de um parto normal, acabam caindo em uma cesariana por pura falta de opção, ou por não conseguirem de desvencilhar desse sistema.
Esse é um assunto muito controverso e que vem sendo amplamente discutido no Brasil, especialmente no momento atual, pois muitos profissionais sustentam diferentes argumentos, e, mesmo algumas mulheres dizem preferir a cesariana em funcao da questão da dor, ou mesmo da violência obstétrica ao qual foram submetidas em partos normais anteriores.
Muitas dessas mulheres não chegam a saber que diversos procedimentos dolorosos como a episitomia (conhecida como “pico”, corte na vagina), manobra de Kristeller (empurrar a barriga para baixo), normalmente usados para acelerar o trabalho de parto, são completamente prescindíveis. Sem contar com as pressões psicológicas como pedir que parturiente não grite, ou mesmo frases inoportunas por parte da equipe do hospital. Os relatos são varios e um dos principais argumentos dessa marcha não é somente a reducão dos índices de cesariana, mas o respeito a gestante e ao bebê no momento mais importante da vida de ambos. Respeito ao tempo de duracão de cada parto e as peculiaridades de cada um.
Com isso, não estamos querendo dizer que a cesariana seja dispensável, isso seria de um erro grotesco, pois sabemos do seu inestimável valor em situações limites, onde a vida se encontra sob ameaça. Porém, se algo que se aplicava somente a exceção, passa a ser via de regra, devemos nos questionar seriamente do que anda acontecendo em nosso país.
Em Londres
Em Londres, por exemplo, sabemos que as taxas de nascimento por via normal são muito mais altas que as do Brasil, sendo que a porcentagem de cesarianas oscilam entre 10 a 15% dos nascimentos registrados. Esse dados são fundamentais para se pensar na questão brasileira. Quando essas taxas são comparadas a outros países como a Holanda, por exemplo, é ainda maior a diferenca entre essas realidades, quando contrastadas com a brasileira.
A AMBE (Apoio a Mulher Brasileira no Exterior) aderiu a essa interlocução, iniciando uma triagem para ouvir as mulheres brasileiras que tiveram acesso ao sistema público de saúde no Reino Unido no momento do parto, bem como aquelas que optaram por ter um parto domiciliar com o mínimo de intervenção possível. Ouvir o que essas mulheres têm a dizer sobre suas experiências de gravidez, parto e puerpério, fora de seu país de origem é o principal objetivo desse projeto.
Com o assunto borbulhando no Brasil, certamente vamos ter mais notícias sobre a questão da assistência ao parto em âmbito nacional. Mais que um assunto somente de saúde pública esse tema é de interesse coletivo, pois como diz o medico obstetra Michel Odent: “Para mudar o mundo e preciso mudar primeiro a forma como nascemos”.














































