Reflexões sobre o I Simpósio Europeu sobre o Ensino do Português como Língua de Herança

29 Oct, 2013

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Por Celeste Gatai 

“Heritage speakers are the children of immigrants born in the host country or immigrant children who arrived in the host country some time in childhood” Montrul (2012:2)

“Falantes de língua de herança são filhos de imigrantes nascidos no país que os recebeu ou crianças imigrantes que chegaram no país que os recebeu em algum período da infância” Montrul (2012:2)  

Apresento-lhes Sandra (este não é o seu nome verdadeiro). Ela é filha de mãe  brasileira e pai espanhol, e nasceu e cresceu em Nova Iorque. Até os três anos Sandra falava inglês, espanhol e português. Porém, quando ela começou a frequentar a escola parou de falar português e espanhol em casa, apesar de seus pais continuarem a falar suas respectivas línguas maternas com ela. Ela aprendeu a ler e a escrever em inglês. Entretanto, as coisas mudaram com a chegada de uma tia brasileira que passou a morar com a família quando Sandra tinha 12 anos. Como sua tia não falava inglês, Sandra teve que começar a falar português novamente. Eu conheço bem a Sandra. Ela é agora uma de minhas alunas aqui em Londres e espera poder começar uma nova carreira como tradutora bilíngue. Diferentemente da maioria dos meus outros alunos que estudam o português como língua estrangeira, isto é, como “qualquer língua que não seja a língua materna” (Johnson, 2008:12), ou como uma língua que não tenha “falantes ou usuários locais imediatos”(Mitchell e Myles, 2004:6), Sandra é um exemplo típico de alguém que está tentando se reconectar com uma língua que foi “herdada” no momento de seu nascimento. Tornou-se logo claro que o aprendizado de Sandra tinha sido motivado pelo seu desejo de não só reconstruir sua identidade brasileira, mas também, como no caso de meus outros alunos, de investir na aquisição de habilidades que pudessem lhe propiciar novas oportunidades profissionais. De fato, “identificar como os aprendizes de uma segunda língua diferem daqueles que falam uma língua de herança, no que diz respeito à sua competência linguística e capacidade de processamento, é um passo crítico em direção a um desenvolvimento eficiente de estratégias pedagógicas no ensino de línguas” (Montrul, 2012:7).

By Regina Mester

By Regina Mester

Nos dias 24 e 25 de outubro eu tive a oportunidade de participar aqui em Londres do Primeiro Simpósio Europeu sobre o Ensino do Português como Língua de Herança organizado pela Abrir (Associação Brasileira de Iniciativas Educacionais no Reino Unido) e sediado no Instituto de Educação. Os objetivos do simpósio eram os de: a) promover a troca de práticas exemplares neste campo, b) iniciar uma colaboração entre os países nos quais projetos estão sendo criados para ajudar crianças expatriadas e suas famílias a manterem vivas a língua portuguesa e suas práticas culturais correspondentes, e c) aumentar a visibilidade do ensino do português como língua de herança na Europa. Participantes vindos da Bélgica, Espanha, Alemanha, Suíça e Noruega nos contaram dos desafios que enfrentam para criar associações e programas independentes para promover e manter a língua portuguesa e a cultura associada aos diferentes países lusófonos. Em Londres existem no momento 13 grupos diferentes em ação. A maioria deles nasceu por pura necessidade, colocados em prática por pais tentando entender as dificuldades enfrentadas por seus filhos e apoiá-los durante sua adaptação a um novo país.

A doutora Ana Souza, presidente da Abrir, identificou 7 desafios que estes grupos enfrentam invariavelmente na Inglaterra:

a) encontrar lugares adequados para seus encontros, b) a falta de treinamento e de oportunidades de desenvolvimento profissional para professores, c) a inexistência de currículos adequados a esta área, d) a falta de acesso a materiais didáticos apropriados, e) a diversidade de habilidades linguísticas encontrada entre os alunos, f) a dificuldade em se manter a motivação dos participantes, e g) a falta de participação dos pais. Ela também acrescentou que a falta de financiamento e a grande mobilidade das famílias envolvidas permeiam as dificuldades acima citadas. As discussões giraram em torno de como os diferentes grupos lidaram com os problemas mencionados acima em seus respectivos países, dando-nos a oportunidade de aprender uns com os outros e de testemunhar muitas histórias de sucesso.

Abrir (9)

Por Regina Mester

Abrir (3)

Por Regina Mester

 

 

 

 

 

 

 

A doutora Edleise Mendes, da Universidade Federal da Bahia, Brasil, enfatizou a importância de se juntar forças e mobilizar esforços em redes bem organizadas por toda a Europa para que estas iniciativas isoladas tornem-se parte de uma comunidade de prática profissional muito maior, ganhando assim mais visibilidade, e como resultado, mais apoio. Além disto, enfatizou que todos os envolvidos em tais projetos precisam encontrar maneiras novas de “pertencimento” nalíngua portuguesa, e refletir sobre o que realmente significa “viver suas vidas em português “, seja lá onde estiverem. Estudiosos como Montrul (2012:24) propõem que a pesquisa nesta área seja desenvolvida através de uma dupla abordagem, combinando-se a sócio e a psicolinguística, para que a linguagem dos falantes de línguas de herança seja não só “recuperada” mas também “revitalizada” pela suas experiências sociais pontuais. Participar do Simpósio foi uma experiência valiosíssima, já que agora sinto que entendo muito melhor as complexidades da criação de crianças bilíngues, e o quanto a experiência de crescer em um ambiente bilíngue afeta o futuro destas crianças, como ficou ilustrado na história de Sandra. Até o mês que vem!

 

Referências bibliográficas: Johnson, K. 2008. An Introduction to Foreign Language Learning and Teaching. 2nd ed. Harlow: Pearson Education Limited. Mitchell, R. and Myles, F. 2004. Second Language Learning Theories. Second edition, London: Hodder Education. Muntrol, S. 2012. Is the heritage language like a second language? EUROSLA Yearbook 12:1–29.

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